Admito que vejo Saint Jean Pied de Port - Roncesvalles como uma jornada singular!
1. Porque foi a inicial.
2. Por sua topografia.
3. Porque nela vi muitos se machucarem.
Tratei essa jornada com o respeito e a ponderação do visitante que por ali passa sem muita pressa. Muito mais para xeretar seus encantos e respirar suas paisagens, do que para chegar ao fim.
Aprendi algumas coisas enquanto me preparava para o Caminho, as quais passei esse primeiro dia praticando. Esses cuidados eu por lá já cheguei sabendo, mas não por experiência própria.
Aprendi nas reuniões da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS), nas conversas com peregrinos experientes, e através de informações obtidas em livros e sites na internet.
Eles foram essenciais para que eu chegasse não só a Roncesvalles, como ao fim de cada jornada, sentindo-me muito bem. Apenas o cansaço natural de quem passou tantas horas caminhando! Em média, 25 km por dia.
O que dizer sobre isso?
1. Porque foi a inicial
Por ser a etapa inicial do caminho, é natural que mesmo que a fase de preparação nos tenha condicionado para fazê-la satisfatoriamente, o nosso corpo ainda precise de ajustes.
A mochila pode ser considerada uma primeira novidade à qual é provável que o corpo ainda esteja se adaptando.
Além disso, é comum que a ansiedade de alguns os torne mais ligeiros do que o suportável pelos seus corpos já naquele instante. O corpo, embora sentindo-se desrespeitado, costuma atender a essas solicitações matutinas, mas tem seus limites!
Não raro esse limite termina alcançado antes do final da jornada, sob diferentes formas de protesto, que traduzem-se em machucões. Eles são para obrigar a que andem devagar.
Fui sempre gentil com o meu próprio corpo, e deu muito certo.
2. Por sua topografia
A topografia do Caminho nesse trecho dos Pirineus, nos leva não só através de uma longa subida, como nos seus quilômetros finais, a uma descida verdadeiramente íngreme.
Esta é certamente a segunda novidade (a primeira é a mochila) à qual é provável que o nosso corpo precise adaptar-se.
Ao subir eu ajustava a minha mochila para que ela encostasse na parte superior das minhas costas. Ao descer, fazia o ajuste contrário, para que ela afastando-se do meu corpo na parte superior, contrabalançasse a componente agora maior, do meu peso para a frente.
Sempre subi daquele jeito que pratiquei durante a minha fase preparatória! Passos curtos. Muito curtos! M E S M O! Tão ridiculamente curtos, quanto sabiamente dosados. Subi não raro concentrando-me na troca de passos e na respiração. Devagar e continuadamente...
A descida eu fazia com passos mais largos, para uma distribuição melhor do peso, e com o uso de dois bastões. Usei dois bastões de carbono (sticks) com os quais equilibrei o meu peso durante toda a caminhada.
O uso correto dos bastões durante a caminhada, ajuda na redução do peso do corpo sobre as articulações. Mas sobre isso falarei depois.
Na decida eles têm uma função de freio, e há momentos em que fica muito claro para quem os usa, o quanto são necessários e muito importantes.
Importante portanto é sempre lembrar deles, evitando de deixá-los, por esquecimento, depois de cada parada ao longo do Caminho. :-)
Na descida, apoiar-se nos bastões é amar os seus joelhos.
A descida dos Pirineus, pelo Caminho oficial, é tão íngreme que continuo a vê-la íngreme, mesmo depois que tudo terminou! :-) É íngreme MESMO! E dura quase 4 km.
Nos anima descê-la, saber que a cada passada, Roncesvalles se aproxima.
Porém o custo de descê-la sem usar sequer um bastão, pode ser muito alto. Talvez a necessidade de um ou dois dias de repouso em Roncesvalles, antes de prosseguir, e depois disso ainda alguns dias andando e sentindo dores, e até mesmo a necessidade de ser medicado na esperança de ficar bom.
3. Porque nele vi muitos se machucarem
O Caminho não machuca ninguém!
O vejo na mesma linha do que se diz sobre a velhice:
"O problema não está na velhice, está no velho".
Portanto, o que até aqui relatei, o faço como uma mensagem sobre a importância de nossa adequação ao Caminho.
"Toda pedra do caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver."
Parafraseando Roberto e Erasmo Carlos: É preciso saber fazer o Caminho.
A vida como metáfora do Caminho?
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