Pensamentos de Frédéric Gros (continuação):
"Já o peregrino, por sua vez, nunca está em casa onde quer que esteja andando: um estranho. Assim, dizem os padres, encontramo-nos sobre a terra como num local de trânsito e teríamos de considerar nossa casa apenas como o abrigo para uma noite, nossos bens como uma mochila cujo peso se pode aliviar, e os amigos como pessoas com quem cruzamos à beira dos caminhos. Um punhado de palavras a cerca do tempo que está fazendo, alguns apertos de mão, e passar bem: "Boa Viagem". Todo homem aqui embaixo é um peregrino, dizem os padres: sua vida inteira é um exílio, pois a sua verdadeira morada não foi alcançada e jamais poderá sê-lo cá embaixo. E a terra por inteiro é um abrigo improvisado. O Cristão passa pela vida como um caminhante por um país qualquer sem se deter. Encontram-se, por exemplo, estes versos no canto do peregrino de Compostela: "Companheiro, é nossa obrigação caminhar / sem nos demorarmos"."
"Caminhar é uma conversão, um chamado. Caminha-se também para dar um basta e eliminar-se: acabar com a agitação do mundo, o acúmulo de tarefas, o desgaste. E para esquecer, para não estar mais aqui, nada como a grande chatice das estradas, a monotonia sem limites dos caminhos florestais. Caminhar, desprender-se, partir, largar."
"A intensidade mística do túmulo, não é tão forte, tão arrebatadora, que possa relegar para dentro da escuridão da noite a longa estrada que leva a ele."
"Gosto de pensar que São Tiago representa tão plenamente as virtudes da romaria também por ter sido como a primeira testemunha da Transfiguração do Cristo. A transformação interior permanece sendo o ideal místico do peregrino: deve-se dela regressar absolutamente alterado. Essa transformação transparece também no vocabulário da regeneração, daí a presença frequente, nas proximidades de lugares sagrados, de uma fonte, um ribeirão, um rio: elemento lustral onde se mergulha a fim de sair purificado, como que lavado de si mesmo - cabe lembrar aqui a perigrinação dos hindus às fontes do Ganges."
"Vai-se perdendo aos poucos, ao longo do caminho todo, sua identidade e suas lembranças, para se tornar nada mais do que um corpo que não para de andar."
"Contudo o peregrino não renasce para si, mas para o desapego de si, para a indiferença pelo tempo, para a benevolência universal."
"Também na caminhada experimenta-se a alegria desta vez entendida como a função mental do afeto ligado a uma atividade. No fundo a mesma ideia está presente em Aristóteles e Spinoza: A alegria é o acompanhamento de uma afirmação."
"Quando se caminha, a trilha sonora de alegria é sentir a que ponto o corpo foi feito para esse movimento, como ele encontra em cada passo os recursos para o passo seguinte."
"O corpo sem fome nem sede, sem sofrimentos, o corpo, o corpo em repouso, e sentir-se simplesmente viver, isso basta para a mais alta das alegrias, de uma intensidade pura, de uma modéstia absoluta: a de viver, a de sentir-se aqui, a saborear sua presença e a do mundo em harmonia. Que pena! E a grande maioria das vezes e a tempo demais, correm correm ao nosso encalço imagens ruins que nos levam a crer que a plenitude depende da posse de objetos, de reconhecimentos sociais. E partimos longe demais, sempre, à procura de uma alegria contudo tão próxima, tão simples que chega a tornar-se difícil."
"A experiência da caminhada constitui sem dúvida uma reconquista, porque, ao submeter o corpo a uma atividade demorada - que, como visto, traz alegria, mas também cansaço e tédio - faz surgir com o descanso, a plenitude, essa segunda alegria, mais profunda, mais fundamental, ligada a uma afirmação mais secreta: o corpo respira tranquilamente, eu estou vivo e estou aqui."
"Já o peregrino, por sua vez, nunca está em casa onde quer que esteja andando: um estranho. Assim, dizem os padres, encontramo-nos sobre a terra como num local de trânsito e teríamos de considerar nossa casa apenas como o abrigo para uma noite, nossos bens como uma mochila cujo peso se pode aliviar, e os amigos como pessoas com quem cruzamos à beira dos caminhos. Um punhado de palavras a cerca do tempo que está fazendo, alguns apertos de mão, e passar bem: "Boa Viagem". Todo homem aqui embaixo é um peregrino, dizem os padres: sua vida inteira é um exílio, pois a sua verdadeira morada não foi alcançada e jamais poderá sê-lo cá embaixo. E a terra por inteiro é um abrigo improvisado. O Cristão passa pela vida como um caminhante por um país qualquer sem se deter. Encontram-se, por exemplo, estes versos no canto do peregrino de Compostela: "Companheiro, é nossa obrigação caminhar / sem nos demorarmos"."
"Caminhar é uma conversão, um chamado. Caminha-se também para dar um basta e eliminar-se: acabar com a agitação do mundo, o acúmulo de tarefas, o desgaste. E para esquecer, para não estar mais aqui, nada como a grande chatice das estradas, a monotonia sem limites dos caminhos florestais. Caminhar, desprender-se, partir, largar."
"A intensidade mística do túmulo, não é tão forte, tão arrebatadora, que possa relegar para dentro da escuridão da noite a longa estrada que leva a ele."
"Gosto de pensar que São Tiago representa tão plenamente as virtudes da romaria também por ter sido como a primeira testemunha da Transfiguração do Cristo. A transformação interior permanece sendo o ideal místico do peregrino: deve-se dela regressar absolutamente alterado. Essa transformação transparece também no vocabulário da regeneração, daí a presença frequente, nas proximidades de lugares sagrados, de uma fonte, um ribeirão, um rio: elemento lustral onde se mergulha a fim de sair purificado, como que lavado de si mesmo - cabe lembrar aqui a perigrinação dos hindus às fontes do Ganges."
"Vai-se perdendo aos poucos, ao longo do caminho todo, sua identidade e suas lembranças, para se tornar nada mais do que um corpo que não para de andar."
"Contudo o peregrino não renasce para si, mas para o desapego de si, para a indiferença pelo tempo, para a benevolência universal."
"Também na caminhada experimenta-se a alegria desta vez entendida como a função mental do afeto ligado a uma atividade. No fundo a mesma ideia está presente em Aristóteles e Spinoza: A alegria é o acompanhamento de uma afirmação."
"Quando se caminha, a trilha sonora de alegria é sentir a que ponto o corpo foi feito para esse movimento, como ele encontra em cada passo os recursos para o passo seguinte."
"O corpo sem fome nem sede, sem sofrimentos, o corpo, o corpo em repouso, e sentir-se simplesmente viver, isso basta para a mais alta das alegrias, de uma intensidade pura, de uma modéstia absoluta: a de viver, a de sentir-se aqui, a saborear sua presença e a do mundo em harmonia. Que pena! E a grande maioria das vezes e a tempo demais, correm correm ao nosso encalço imagens ruins que nos levam a crer que a plenitude depende da posse de objetos, de reconhecimentos sociais. E partimos longe demais, sempre, à procura de uma alegria contudo tão próxima, tão simples que chega a tornar-se difícil."
"A experiência da caminhada constitui sem dúvida uma reconquista, porque, ao submeter o corpo a uma atividade demorada - que, como visto, traz alegria, mas também cansaço e tédio - faz surgir com o descanso, a plenitude, essa segunda alegria, mais profunda, mais fundamental, ligada a uma afirmação mais secreta: o corpo respira tranquilamente, eu estou vivo e estou aqui."
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