quarta-feira, 3 de setembro de 2014

J 03/32 - Parte III - Pamplona -- Pela Segunda Vez.



Ponte Madalena.

Chegamos então pela segunda vez a Pamplona!

A primeira fora de trem quando viemos de Madrid, via Pamplona, para Saint Jean Pied de Port.

Em Pamplona havíamos encontrado à frente do albergue Xarma o nosso condutor Juan, que nos levaria a Saint Jean Pied de Port.

No nosso terceiro dia de caminhada, eu atravessaria a primeira grande cidade do Caminho. 

Uma boa alternativa a pernoitar em Pamplona, seria andar mais 5,1 km indo dormir em Cizur Menor.

Minhas condições físicas eram tão boas que permitiriam isso!

À  chegada em Pamplona, nos deparamos com o albergue municipal, onde à sua frente, sentados em um banco meio que desfalecidos, pude reconhecer à distância os dois peregrinos Goianos que conhecera horas antes à saída de Larazoaña.

Gratuitamente animado, mesmo após ter andado 20 km, atravessei correndo a avenida, mochila às costas, sticks às mãos, em direção ao albergue.

Creio que surpreendi duas vezes nossos novos conhecidos goianos, que assistiram à cena incrédulos!

Eles poderiam até ter pensado: "Estamos tão cansados assim ao ponto de ver coisas?" Afinal nada mais inusitado de que um peregrino chegar correndo ao final de uma jornada!

A primeira surpresa foi que tratava-se sim de um peregrino de carne e osso, em fim de uma jornada, sim! Mas que tinha forças para correr alegremente ao encontro do albergue que o acolheria.

A segunda surpresa, esta talvez maior, foi quando fingindo ignorar o albergue e a presença deles dois, passei no mesmo ritmo em que vinha à frente do banco onde estavam, em direção à cidade. 

Parei pouco depois, e ao voltar caminhando em direção aos dois, não pudemos conter o riso, e se às vezes o cansaço excessivo pode provocar vontade de rir, ajudados por uma cena inesperada de humor, eles deram boas risadas, e nesse instante senti que riam também deles próprios.

Nunca mais vi a dupla Goiana que minutos depois entrava no táxi que estavam aguardando, para seguirem em busca de algum outro albergue, porque aquele já estava lotado.

Quanto a mim, estava descartado prosseguir até Cizur Menor. Alcides ficaria em Pamplona de onde na manhã do dia seguinte, seguiria de trem para Sarria, como já havia decidido.

Paolo que chegara mais cedo a este albergue, administrado por uma senhora alemã, conseguiu hospedagem. Ele assistiu o prosseguimento da nossa caminhada. Minha e de Alcides.

Caminhamos até o Centro Histórico de Pamplona, e a partir de certo ponto, com ares de familiaridade nos dirigimos ao albergue Xarma, ao qual já sabíamos como chegar. Nos instalamos em um quarto com duas camas beliche, e mais nada.

É recomendável alertar os peregrinos de primeira viagem, que a travessia de grandes cidades é normalmente precedida de vários dias por paragens bem mais românticas. Por elas nem carroças circulam, quanto mais ônibus. No máximo alguns cachorros em lugar de motos. Peregrinos cansados em lugar de pedestres apressados. Ar puro e canto do cuco, em lugar da buzina de carros, e um outro tipo de ar em meio ao escapamento de tantos veículos motorizados.

O Caminho passa por algumas cidades maiores, mas essas cidades maiores não são o Caminho. A mensagem é: Lembre-se disso para não ser atropelado. 

Uma vez instalado no Albergue Xarma, e sem que precisasse lavar roupas, resolvi que não lavaria nem a mim mesmo! 

Antes que possa horrorizar alguém, eu apenas adiei meu banho de fim do dia para algumas horas depois. Precisava ser ligeiro se quisesse visitar o interior da Catedral de Pamplona.

Alcides preferiu ficar descansando. 

Na sala de estar do albergue, que tinha pouquíssimos hóspedes, estava uma senhora australiana com quem conversei um pouco antes de sair. Foi interessante conhecer alguém cujo planejamento para o Caminho permitia que ela nele permanecesse por meses a fio! Sem pressa, a velha senhora "era dona das próprias ventas". Só andava se quisesse, quando quisesse e o quanto achasse que poderia sem se cansar demais. E pronto!

Em direção à Catedral, e ainda que usando um mapa da cidade, por duas vezes precisei pedir orientação. A educação, atenção e prestimosidade com que fui atendido fez com que eu chegasse a tempo de visitá-la. Uma garota, ao lado da praça de touros, chegou a me dar um outro mapa que considerava melhor do que eu tinha. E um guarda deixou o lugar onde estava para me indicar de outro ângulo o caminho que finalmente me levaria ao local. 

A poucos metros da Catedral reencontrei Paolo pela segunda vez! A primeira tinha sido em Roncesvalles. Como ele estava ali com o mesmo propósito de visitar a Catedral, nós a visitamos juntos, e depois fomos jantar no restaurante que tivesse mais clientes pois esse deveria ser o melhor.




No restaurante, enquanto tomávamos vinho, não lembro se foi durante o prato de entrada, ou durante o prato principal ou na sobremesa, que só então me dei conta que ao deixar o albergue minutos antes, havia esquecido de antes  trocar as minhas botas pela papete! Isso veio a significar que definitivamente, as minhas botas estavam aprovadas. Sendo desconfortáveis, eu teria certamente lembrado de tirá-las.  Um brinde ao meu par de botas LOWA.

De volta ao albergue, após um bom banho, um bom sono!

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