sábado, 15 de fevereiro de 2014

Minha Segunda Reunião da AACS - Recife - Parte II.

Sabemos que são vários os caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora o chamado Caminho francês seja considerado "O Tradicional" e mais percorrido, o Caminho do Norte, engloba no seu trecho final, entre Oviedo e Santiago de Compostela, na sua alternativa rural, o chamado Caminho Primitivo. 

O Caminho Primitivo, que observei ser menos conhecido pelos que estavam presentes à reunião, foi tema de uma rica exposição por um casal de peregrinos, que em sua terceira peregrinação recentemente realizada, escolheram percorrê-lo.

Conceição e Perez que por duas vezes fizeram o Caminho Francês, escolheram desta vez, o Caminho Primitivo. Partiram de Oviedo até Santiago de Compostela, percorrendo a pé, 310 Km em 11 dias.

A seguir tentarei reproduzir na medida do possível os seus relatos:

Antonio Perez: "O Caminho primitivo começa na cidade de Oviedo, ele vem pelo norte (norte da Espanha), e vai até Santiago. São 310 km. É uma parte do Caminho do Norte. Caminho do Norte que vai pelo litoral, quem gosta de mar... Essa coisa assim! Ele vem por todo o litoral, sai da fronteira da Espanha com a França, vai por San Sebastian, passa em Bilbao, quase todo ele é litorâneo. 

Agora ele, quem chegar mais perto vai ver os detalhes, os Pirineus, eles não param na fronteira França - Espanha. Geograficamente eles ganham um outro nome, mas a cordilheira continua. Até lá junto da Galícia. 

Então, o seguinte: do lado esquerdo, sul dessa cordilheira que vai na horizontal aqui, vai o caminho francês. Que vai pelas planícies, e tal, que é mais suave. Caminho suave. E o Caminho do Norte, vai pelo litoral! A montanha, chega no mar! E aí tem serra, é muita baía para entrar, ir e voltar, não é? Alguns trechos até se quiser pode pegar um barquinho lá e atalhar. E vai até aqui. 

Se vocês observarem, ele bifurca aqui.  Nesse ponto aqui. Essa bifurcação, uma ele continua pelo litoral, ele continua o Caminho do Norte, chega mais em cima, ele imbica. E a outra vai por dentro. Por dentro liga a capital do (antigo) último Reino Cristão,  que não caiu sob o domínio muçulmano, que a capital era Oviedo, que fica nessa ponta do norte aqui, até Santiago. Que foi quando descobriram o Apóstolo, e tal, e o Rei daqui saiu, foram ele e o Bispo lá, foram dizer que ali estavam os restos mortais de Santiago, e (tudo) começou. Por isso que chamam de "O Caminho Primitivo". A partir daqui começaram as peregrinações. Começou com o Rei... Esse de fato é o mais antigo. O resto era muçulmano! 

Cessa: "Agora, a gente não fez o da costa! a gente não fez o caminho olhando o mar! A gente fez o caminho pelo campo. Uma coisa rural! Primitiva. Não tinha tempo suficiente para para tudo".

Antonio Perez: "O Caminho do Norte é tudo. Inclusive o Primitivo. Você ao chegar em Oviedo pode prosseguir pegando um ou outro". 

Cessa: "O Caminho do Norte não começa em San Jean Pied de Port. Começa mais ao Norte, em  Iron. A primeira cidade do caminho é Santander. Que é uma cidade de veraneio "chic" lá na Espanha". 

Antonio Perez: "Santander é de fato a sede do Banco Santander. Então ele tem em vários trechos dele, várias alternativas. Geralmente uma mais longa que vai mais pelo campo, e outra mais curta que você vai encarando um negócio industrial e tal. Uma região muito industrializada. Principalmente no País Basco, no começo dele aqui, tem um polo siderúrgico Espanhol lá".

Cessa: "Então a gente teve que tomar três decisões. Primeiro: se a gente sairia daqui de Iron e andaria até onde desse, por conta do tempo, ou (segundo) se a gente iria mais para a frente, e chegaria a Santiago. E aí a gente teve de decidir (terceiro) se a gente iria pela costa, ou se iria pelo interior. Aí a gente decidiu que iria pelo interior. Por quê? Porque mar a gente já tem muito aqui. E o caminho primitivo é um caminho mais rústico. Aí a gente... Esse aqui (o litorâneo) você passa por cidades grandes também, industriais, e esse (pelo Interior) era mais rústico. Passava por cidades menores". 

Antonio Perez: "A gente começou (a caminhada) em 16 de setembro. Bom! Oficialmente o verão termina no dia 21 de setembro. Termina o verão, começa o outono. Mas ainda tem um resquício assim a última leva, de calor. É um pouco quente! Mas não é tão quente quanto agosto. Bom! Então vamos começar aqui, Tem muitas variantes. Nós fizemos uma delas, a gente chega em um lugar, a uma certa altura que você tem uma opção. Tem uma que você, para essa jornada... Você, para essa jornada, tem uma que você desce, desce, desce, vai lá pernoita e no dia seguinte você tem uma baita rampa para subir e descer. Certo?  Tem outra que você vai subindo mais devagar, ela vai pelo cume de uma cordilheirazinha. Você vai a uns 1000 m de altitude, 1200 m, 1300 m, inclusive você chega a ficar em cima, em relação a esse pessoal que vem de baixo! Você sobe, e vai. 

Qual o inconveniente dessa? Esse caminho todo, você não tem apoio. Igual aos Pirineus. Zero apoio. Você tem um trecho de uns vinte quilômetros, sem nada. Nem água. Você precisa se organizar. Os outros trechos você não precisa se organizar. Mas esse você precisa. E é o mais bonito!

Cessa: Agora, o (Caminho) Primitivo encontra o (Caminho) francês, em Melide. É a cidade do Polvo (referindo-se ao prato famoso de Melide). Agora lá, também, eles dizem que em Consagrada, uma cidade no Caminho Primitivo, eles dizem que tem um Polvo que é mais saboroso que o de Melide. Isso é um pouco de disputa provinciana! Não é?

Fátima Ananias (Representante da AACS): Você tem no Caminho Primitivo a mesma assistência que tem quando percorrendo o Caminho Tradicional?

Perez: Tem assistência mas é menor.

Cessa: Muito menor. Ele acha que tem! Eu já acho... Que é MUITO menor.

Fátima Ananias: Qual é a assistência?

Perez: Você encontrar um bar, você ter um bar, só que a densidade é menor que a outra.

Cessa: Os albergues são menores...

Prez: A gente viu (albergues) muito bons, e outros derrubados.

Cessa: Tinha um péssimo!

- Havia alternativas aos albergues?

Cessa: Muito menos do que pensei.

Em seguida foram passados slides com registros fotográficos ao longo do caminho: Catedral de Oviedo, Festa de rua no dia do São Salvador, albergue em Oviedo, Igreja em Oviedo, Calle de la Rua (curiosidade), entre muitos outros. Seguiram-se muitos comentários.

Cessa: As Igrejas são bem menores do que as do Caminho francês.

Fátima Ananias: Estão todas abertas?

Perez: Algumas. E elas são bem mais simples.

Perez: O Caminho (primitivo) é cheio de detalhes!

Cessa: Esse aqui é um Orion (celeiro), que é muito maior do que os que encontramos no Caminho francês, na Galícia.

Perez: Os de lá são estreitinhos! Não é? Esse aqui não. É um quadrado grande.

Mostrados também o primeiro albergue no qual ficaram depois de Oviedo, bem como outros albergues.

Cessa: Tony (Antonio Perez) andava mais rápido e depois voltava, e tirava fotos minhas usando o zoom.

Perez chama atenção para aviso (naturalmente que em espanhol) em uma parede do Caminho Primitivo: "Aqui não é cagador de cachorro."

Cessa: Eles lá tem o mesmo problema que aqui.

Perez: Aqui (mostrando foto) é onde tem aquela bifurcação que falei para vocês. Tem seta apontando para lá e para cá. Para você ver se quer ir por cima das montanhas. A gente pegou a de cima.

Perez: Essa aqui (mostrando foto) é a variante dos hospitais. Tem três hospitais aqui(hospitais no sentido de hospitalidade, significa albergue). Dos antigos.

Cessa: Três albergues.

Perez: Muito bem sinalizado (o Caminho Primitivo). Aqui  só tem um perigo: quando você pega um nevoeiro fechado que você não vê dois palmos na frente, ou então neve.

Perez: Aqui, a gente descendo, estamos a 1140 m chegando em cima! O caminho é bem sinalizado. aqui é uma descida! Tem uma descida ali de pedra solta, e Cessa aqui levou um escorregão, meteu a bunda no chão.

Cessa: Eu caí muito.

Fátima Ananias: Por quê?

Cessa: Porque sei lá!!! Era pra cair.

Cessa: Na verdade, a gente fez o caminho em 11 dias. Com 10 dias a gente chegou ao morro do Gozo. A gente andou uma média de 30 km por dia.

Perez: (lendo uma inscrição fotografada em uma pequena capela do caminho) "Santa Bárbara bendita, que no céu estás inscrita. Guarde o pão e o vinho, e guarde todo peregrino."

Perez: Isso aqui (mostrando uma cobra na foto.) Lá tem cobra (no Caminho Primitivo). E essa é venenosa. É uma víbora. Eu sabia que lá tinha cobra. Mas essa foi a primeira que vi na Espanha.

Cessa: A gente dormiu numa casa rural. A casa rural é uma casa de uma propriedade rural que fazem como uma pousadinha. Dão a comida e ficamos em um quarto só nosso.

Perez: Lugo era a base de uma legião romana. Um acampamento de uma legião romana. Fizeram uma fortificação, e tem uma muralha lá. 

Cessa: E a muralha dela é completa. E a gente ficou em um albergue, e ele é grande. Diferente dos outros.

Perez: É. E ela está inteira essa muralha. A muralha está toda cercada, agora a cidade cresceu para fora também. E em cima da muralha, o que eles fizeram foi um calçadão. Pra turma rodar lá!

Perez: Outra coisa que a gente viu nesse caminho, foi o seguinte. A gente ali entende, essa crise espanhola aí, essencialmente as famílias se endividaram muito! Não é? E aí a gente vê onde eles gastaram o dinheiro. Você não vê uma casinha derrubada.

Cessa: Agora o seguinte: O Caminho Francês, é mais caminho do que esse. Você do ponto de vista ... Eles dizem assim: "boa viagem". Eles não dizem "bom caminho"! Eles dizem "boa viagem". Para mim foi o maior choque, porque em Oviedo, fomos falar com um padre, para selar a credencial, e aí ele veio, selou, e aí disse: "boa viagem". Ele não era o padre não. Ele era ajudante lá da igreja. E a gente chegou também no período que estavam comemorando o Jubileu, da catedral de São Salvador. Lá na catedral de São Salvador tem relíquias...

Perez: Eles tem um Santo Sudário, lá.

Cessa: Eles tem o Santo Sudário. Relíquias do Santo Sudário.

Perez: Neste ano (2014) é ano deles mostrar. Só de cinquenta em cinquenta anos eles mostram. E essa cruz, é a cruz da vitória.

Cessa: Ela foi revestida de ouro.

Perez: Ela na verdade é uma cruz de madeira. Ela foi da primeira batalha que os cristãos ganharam dos muçulmanos.

Perez: Isso aqui (mostrando em uma foto uma sinalização do caminho) é um destaque em madeira para preencher de amarelo em cima, para justamente, se nevar, como essa região é alta, você enxergar a seta.

- Mais organizado do que o francês! Né?

Perez: Mais.

Bom! Antonio Perez recomendou o manual "Caminho do Norte" do EL Pais, Editado pela Aguilera.

Existe um manual semelhante, dos melhores, "O Camiño de Santiago a pie." do El Pais, Editado pela Aguilera, escrito por Pablo Nadal.

Ambos podem ser encomendados na Livraria Cultura.

THE  END.









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